Quarta-feira, Fevereiro 21, 2007

Um registro de minha vida


A música teve muita importância na minha vida, desde menino. Estudei no Ginásio Diocesano D. João da Mata - escola de primeira qualidade. Era um colégio novo, recém construído e no início de seu funcionamento. Nele cursei o primeiro grau.

Padre José Sinfrônio, um empreendedor com visão de futuro aguçadíssima e muito otimista. Fez uma revolução cultural lá no interior da Paraíba - Itaporanga - nos idos de 1965. O Ginásio foi construído com participação e doação de toda a sociedade local e mais do que um colégio foi criado, naquele local, um vetor do crescimento cultural para os estudantes e para a comunidade. Estudar no Ginásio era um privilégio, pois além das aulas previstas na grade curricular do ensino médio, havia uma fonte de saber o do futuro que cada um poderia construir em suas vidas; a música.

Foi nesse caminho que eu e mais quatro irmãos trilhamos na mais perfeita harmonia. Todos estudamos teoria musical e técnica do tocar um instrumento, com o Maestro severino Ferreira. Daí chegamos a entender que a vida se costrói do saber e não da hegemonia familiar ou da tradição do coronelismo que imperava naqueles confins, aonde os filhos de fulanos de tal eram os maiores. Aquele Padre foi foda! Ele quebrou todos os paradigmas que ali existiam. Mostrou o passo a passo do futuro e que o saber era maior do que a tradição falida e mostrava que o brilho viria pelo conhecimento, não pela herança de um sobrenome às vezes cheio de arrogância por fora e de podridão nos entremeios dos procedimentos.

Os filhos e filhas de Itaporanga começaram a mudar os seus conceitos e os seus valores. O saber virou moda e a cidade começou a ouvir um som diferente, um som local, o som produzido por seus filhos. Todos felizes e de alma lavada.

O maior passou a ser aquele que além de notas boas nas provas do ensino médio, sabia tocar um instrumento, lendo em uma partitura e com os olhos brilhando de esperança e de felicidade. Assim, não há quem resista, pois o encantamento da alma é muito precioso. Meninos passaram a ser admirados como artistas e o povo começou a entender a arte. Foi quase uma revolução cultural.

O certo é que 42 anos depois eu, mero figurante desse processo àquela época, tenho aquele exemplo como a maior revolução que presenciei na vida. A guerra da prepotência e da arrogância medieval dos tradicionais coronéis e de seus parentes, contra a sabedoria popular de uma gente simples, estudiosa e interessada na idéia de mudar a si próprio e ao mundo, pelo saber.

Registro essa memória por que faz parte de meus valores e do meu crescimento como ser humano. Também de muitos e de vários - inclusive de meus irmãos, que deixaram a arrogância e o enfraquecimento da alma trilhando os caminhos que Padre Zé nos ofereceu; o saber.

Na foto, como um registro, dá para perceber a média de idade desses artistas que foram construídos pela sabedoria de um homem - Padre Zé - e eu estava lá.

Publicado por Marcos Maia @ 2/21/2007 05:41:00 PM

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